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Iokanaan

Diz a história bíblica que João Batista foi aprisionado por Herodes, tetrarca (sub-rei sob o Império Romano) da Galiléia. O Apóstolo tinha sido preso por denunciar o divórcio de Herodes de sua esposa Phasaelis e seu casamento ilegal com Herodias, antiga esposa de seu irmão, tida como sedutora imoral por João Batista. Herodes respeita o Apóstolo como homem santo e sabe que matar o Batista causaria tumultos na Galiléia. Preso na cisterna do palácio de Herodes, João não tem destino certo e aguarda a decisão do tetrarca.

No palácio, a esposa Herodias quer que seu marido mate o Apóstolo, para vingar sua honra. Vendo-se incapaz de convencer o marido, Herodias trama para que sua jovem filha Salomé seduza seu padrasto. A garota promete que dançará a Dança dos Sete Véus para ele, se ele der a ela o que ela quiser. Herodes promete até metade de seu reino à garota. Depois da dança, Salomé pede irredutível pela cabeça do Apóstolo, forçando o tetrarca a escolher entre matá-lo ou falhar com sua honra de rei ao descumprir a promessa.

Hesitante, Herodes ordena a execução de João Batista.


Em uma viagem a Portugal em 2018, obcequei com os quadros de corações enormes da artista Salomé Nascimento no meu quarto do albergue Lost Lisbon. Em uma tarde de ócio, às voltas com o nome da artista, fui pesquisar a personagem bíblica homônima. E descobri a deliciosa peça do Oscar Wilde, onde em vez de ser levada pelo maquiavelismo da mãe, Salomé é retratada como uma perigosa garota mimada que sabe usar o sexo para conseguir dobrar até um rei a fazer os seus caprichos. Uma garota que trama por conta própria a morte de João Batista, único homem que se nega a ceder aos seus avanços, denunciando-a como tão imoral quanto a mãe.


Fiquei interessado nos homens da peça. De um lado, o Apóstolo é retratado como um homem santo, totalmente devoto e preparado para morrer por seus princípios. Ele não parece sentir qualquer apelo da carne, e está em total controle de seus impulsos. Sequer chega a gritar quando o carrasco avança para decapitá-lo.

Do outro lado, Herodes é um rei devasso, hedonista e totalmente entregue a instintos muito primais. É presa fácil para Salomé, por ser um homem que não tem controle sobre si mesmo. Ele recobra momentaneamente seu poder patriarcal ao final da peça, punindo sua enteada como a garota mimada que é. Porém a punição chega tarde, o Batista está morto e o tetrarca já se revelou um governante volúvel e fraco.


Quando a vontade de criar essa pintura surgiu, dei-lhe o título de “Wilde Salomé”. Porém logo soube do filme dirigido pelo Al Pacino com esse título, e não gostei da referência. O filme tinha cara de algo feito às pressas, com escolhas estilísticas que não me agradavam. Haviam outras várias referências interessantes.


Havia o texto original da peça, ilustrado pelo estilo Art Nouveau da Audrey Beardsley, em ilustrações que não se acovardavam diante de um tema que pedia por um erotismo até mesmo pornográfico.


Havia o tableau virtual “Fatale”, produzido pelo estúdio Tale of Tales (@wearetaleoftales) que colocava pequenos detalhes contemporâneos na cena de época e cobria tudo de uma névoa que criava um ambiente de sonho.


Havia o “Salomé’s Last Dance” do diretor Ken Russell, que dava à peça de Oscar Wilde e ao contexto da vida do autor um caráter de pornochanchada, um visual meio “Rocky Horror Picture Show”, que me parecia ser o clima debochado que Wilde pretendia na peça. Muito embora não fosse essa a minha estética…


Por último, havia muita tradição de pintura. Do simbolismo do Gustav Moreau, passando pelo Henri Regnault e chegando em pinceladas mais contemporâneas como a do italiano Saturno Buttò (@buttosaturno).


Há pouco tempo li uma resenha da peça do Oscar Wilde que acusava o texto de misoginia. Afinal, há nele apenas duas figuras femininas, e ambas são pérfidas. Há de se compreender que o autor era gay. O que, na Inglaterra daquela época era um crime. Wilde encontrava algum refúgio do casamento com Constance Lloyd no seu relacionamento secreto com Alfred “Bosie” Douglas, que mais tarde viria a traduzir “Salome” do original em francês para o inglês. Não é que a homossexualidade de Wilde escuse o texto misógino. Mas sinto que coloca a peça dentro de um contexto. Ele havia de ter uma visão negativa das mulheres emsua vida.


A peça me chamou a atenção no começo pelo jogo entre Salomé, Herodes e João. Pelas vezes em que eu me vi nos três papéis. Porém mais fortemente pela lembrança do desprezo que eu nutria ao ser abordado por pessoas que acreditavam que a promessa de sexo faria-me prometer “até metade do meu reino” como Herodes. Do quanto essa suposição ao meu respeito me bestializava, me reduzia àquela torpe generalização do homem que “só pensa em uma coisa”.


Esse sentimento fez-me mudar o nome da pintura para Iokanaan (nome hebraico para João) e alterou o ponto de fuga do cenário para que o quadro pesasse um pouco mais para o lado da cabeça do Batista. A composição resiste à obviedade de apontar e ressaltar apenas a garota nua. O contraste de cores ressalta a menina. Mas as linhas de composição negam-lhe um pouco do poder, ainda que tarde demais, como Herodes ao final da peça. Eu não queria que Salomé roubasse a cena totalmente, como em toda a literatura e pintura que eu havia visto, ofuscando a figura de João Batista.


Quando comecei a rascunhar a pintura, logo me veio à cabeça a coincidência do nome do meu irmão João (@johnylion_ ). Embora não sejamos praticantes de religiões tradicionais, ele tem uma experiência de vida muito mais ligada ao sagrado do que eu, mais resistente a tentações mundanas, tornando-o o modelo ideal para o Apóstolo.


Me ocorre que a história da Salomé contada pelo Oscar Wilde e reinterpretada no jogo Fatale me cativa pelo embate de negações. O Batista nega a Salomé o prazer que ela sente ao ver homens se rebaixando a seus instintos mais básicos diante dela. Salomé nega ao Apóstolo o respeito que ele tanto procura como homem santo. O jogo continua enquanto ambos mantém alguma esperança de que o outro possa ceder.


Eu não sou um homem santo como João Batista, nem um sedutor aos moldes de Salomé. Mas lembro bem de impasses como este por outros motivos nos meus vinte anos. Aqueles em que ambos atraiam e repeliam o outro em igual medida e a tensão mantinha o relacionamento suspenso no ar.



Iokanaan

Fevereiro de 2021

Transferência por solvente e tinta a óleo sobre papel reciclado e gesso

100 x 60 cms


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