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Iokanaan II

No começo do ano passado, eu retomei uma obsessão com a história bíblica de Salomé. Uma obsessão que perdurava desde 2018. Mas quando desenvolvi a primeira pintura sobre o assunto, me deixei seduzir pela figura que dava nome à peça de Oscar Wilde. Acho que, nesse caso, eu fui mais parecido com o Herodes da peça do que com João Batista. O resultado foi algum deleite no processo, mas uma frustração enorme com o resultado. Chame-a de “depressão pós-coito”…


No começo desse ano, resolvi retomar o assunto, focado mais no personagem que me interessava do ponto de vista conceitual: Iokanaan, o João Batista.


Fiquei mais contente com o resultado dessa. Mais simples, direta. Os poucos dias que passei no ateliê do Rodolpho Parigi, junto de artistas excelentes como aMarjô Mizumoto e o Douglas de Souza foram o chacoalhão que eu precisava pra perceber que a minha pintura podia melhorar bastante. Eu ainda acho que posso ir mais longe, com mais prática e paciência. Mas já curti o “level up”.


Um pensamento legal me ocorreu enquanto eu fazia essa. Foram três fases. A primeira delas, o retrato, exigia uma precisão maior. Um milímetro mais pro lado em um detalhe e perde-se a identidade do retratado (meu irmão João Leão). A segunda, a bandeja de prata, era mais solta. O metal tinha um raciocínio lógico que dava pra compreender e seguir, e mantinha sua característica mesmo com algumas alterações minhas. A terceira, o sangue, era ainda mais caótica e tinha uma lógica muito mais subjetiva. Talvez por conta disso que tardei pra terminar esse detalhe. Às vezes uma parte dessa coisa amorfa deixava de parecer sangue e eu não compreendia o porquê. Ainda sinto que poderia melhorar muito mais, parecer menos “pintado”. Mas se eu não desse a pintura por terminada, ficaria retocando esse sangue indefinidamente. Hora de seguir adiante.


E talvez finalmente descansar do assunto da Salomé e do Iokanaan.



Iokanaan II

Abril de 2022

Óleo sobre papelão reciclado

48 x 36 cm


Esta pintura chegou a ser exibida em algumas ocasiões. Ela sempre chamou alguma atenção ao vivo, chegando a ter algumas pessoas interessadas em comprá-la. Eu nunca vendi. Eu queria presenteá-la ao meu irmão como uma espécie de homenagem a ele que era a versão mais espiritual de nós dois. Mas claro, presenteá-lo com uma representação de sua cabeça decapitada parecia um gesto de péssimo gosto, ainda que a história, o processo e o significado pessoal dessa pintura fossem muito bonitos.


Como tentativa de agradar aos potenciais compradores, tentei reproduzir a pintura em quadricromia e vender uma pequena tiragem de 10 cópias. Mas claro, a serigrafia perde um pouco da qualidade material da pintura. Confere-lhe algumas outras características gráficas interessantes. Mas aquela qualidade plástica - as cores, a pincelada, a materialidade - que tanto cativou os colecionadores não está lá. Como produto, essas cópias serigráficas são de uma execução muito mais pobre. Afinal, eu não fazia serigrafia seriamente deste que saí da faculdade vinte anos antes.



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