Lacunas (com Francisco Leão)
- pedrocardosoleao
- 15 de nov. de 2023
- 3 min de leitura
Atualizado: 31 de dez. de 2025

Quando eu fiz 21 anos de idade, meu pai me entregou o anel com o brasão da família em um gesto simples em frente à família dele em Alagoas. Essa cerimônia significava para mim o ser reconhecido como adulto. Mas também significava a indução em uma longa tradição patriarcal que perdia sentido a cada nova geração de homens. O anel era passado para o primeiro filho homem do primeiro filho homem daquela geração, enquanto o pai recebia o anel do seu pai, com a pedra usada como molde na confecção do anel do filho. E tudo isso, na minha geração, já era muito questionável. A foto original captou um detalhe que ilustrava isso: tia Margot, que nunca teve filhos mas era respeitada como a matriarca e líder da família, aplaudindo em aprovação no canto. Veja bem: a família era liderada por uma mulher, as primas já estudavam para assumir cargos importantes em suas respectivas áreas, ser o primogênito já não significava nada e a família lentamente abandonava o negócio do açúcar que lhe rendera o status durante tanto tempo. A passagem do anel tornara-se uma tradição bonita, porém sem sentido concreto.
Guardei o anel em um cofrinho no meu quarto. Tenho quase certeza de que ele foi roubado durante uma reforma da casa. Levaram o cofrinho inteiro, sem saber o que ele continha. O roubo do anel foi para mim uma falha pessoal. Falhei como o adulto que eu deveria ser, incapaz sequer de guardar adequadamente uma relíquia de família, e senti o quanto isso refletiu na impressão que a família tinha de mim. A impressão que meu pai tinha de mim. Por um tempo, pensei em recriar o anel, usando o anel de meu pai. Mas a vergonha da falha era tanta que não me permiti sequer pedir-lhe a jóia emprestado. Vivi com essa falha por vinte anos.
A década de 2020 trouxe ainda outros distanciamentos, muitos por conta de diferenças de visão política, como aconteceu para muitos outros artistas plásticos. Eu e meu pai nos falamos cada vez menos e de forma cada vez mais tensa. Enquanto isso, eu lia e me interessava cada vez mais por assuntos de paternidade nas discussões sobre masculinidades. A minha situação com meu pai tornava-se uma lacuna gritante e uma falha também na minha prática artística: como poderia eu dizer que entendia destes assuntos se não conseguia cultivar uma relação saudável nem com meu próprio pai?

Em 2022, fiz um processo de criar um novo anel, porém com o meu leão. Haveria de ser também um comentário sobre essa história familiar. Ele simbolizava um outro caminho para o nome. Em uma contra-cerimônia, dei um para meu pai, para reparar a minha falha, e fiquei com outro. Sentados em um sofá diante de um dos quadros quadriculados de meu avô, conversamos bastante. Sobre crescer como homem, sobre conselhos de pai pra filho. E sobre lacunas.
Na pintura, a cerimônia original assumiu o significado que tinha pra mim: o ato de passar de pai para filho o privilégio, o conhecimento, o fardo e as lacunas de uma masculinidade familiar. Por isso que a pintura ganhou os quadriculados coloridos que meu avô paterno (engenheiro químico apaixonado por abstrações modernistas) pintava em seus momentos de lazer. E por isso que eu e meu pai nos vestimos da mesma maneira (algo que aconteceu por acaso no dia da foto). Na minha reinterpretação, ainda alterei a cor das camisetas e nos dei algumas lacunas nas calças, procurando chegar mais perto das cores e padrões dos zangões de abelha que andavam povoando meus outros quadros. O brasão da família figura no canto da pintura (no lugar de tia Margot) como memória desse passado, e acima deste o QR code leva a um formulário breve, com apenas uma pergunta: “O que você esperava que seu pai houvesse lhe ensinado?”. Assim como a minha experiência de lacunas paternas, eu esperava que outras pessoas também compartilhassem as suas.

Lacunas (com Francisco Leão)
Novembro de 2023
Óleo, encáustica, verniz e transferência por solvente sobre papel reciclado e gesso.
95 x 95 cm






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