Série Andrometria
- pedrocardosoleao
- 29 de mar. de 2021
- 3 min de leitura
A ideia começou simples, da curiosidade da palavra inglesa woman, por volta de 2010. O detalhe dela conter "man" dentro dela me chamava a atenção, como se a mulher fosse um homem modificado. Qual seria o significado então do "wo"? Por um tempo, brinquei com ideias de castração freudiana, imaginando que o "wo" pudesse ser uma contração de wounded (ferido). Uma pesquisa simples mostrou que a palavra vinha de wimman, palavra do inglês arcaico, composta de wif (esposa) e mann (pessoa adulta sem gênero definido), que foi simplificando com o passar do tempo para virar woman. De qualquer forma, essa estrutura me intrigava: uma palavra masculina nascida de dentro de uma palavra feminina.
No meu primeiro ateliê, na casa de minha avó Nydia, onde anos de quadros pendurados no mesmo lugar deixavam marcas mais claras nas paredes acinzentadas pela fuligem paulista, resolvi fazer um experimento. Recortei em adesivo preto as letras da palavra, que foram coladas em uma das paredes. Eu queria que a fuligem escurecesse a parede branca em volta das letras. Após algum tempo indefinido, eu removeria as primeiras duas letras da palavra ("wo"), deixando o fantasma branco de parede limpa em seu lugar, e a presença das letras remanescentes ("man") ao lado. Eu nunca cheguei a concluir esse experimento. A vida interveio no processo, eu deixei o ateliê de lado por um tempo para me estabelecer como professor e quando voltei, minha avó já havia falecido e meus pais haviam se instalado na casa, requisitando o ateliê que eu não usava faz tempo.
Em 2020, o país se viu às voltas com a pandemia da COVID 19. Nas manchetes de jornais, a escalada da violência doméstica. Para mim, aquilo parecia resultado de homens brutos de criação antiquada que, enclausurados no ambiente doméstico/feminino, viam-se impossibilitados de exercer seu papel de provedores no ambiente profissional/masculino. Sentiam-se emasculados, feminizados ao serem obrigados a lidar com o próprio lar. Eles reagiam agredindo o feminino: na casa, nas esposas, neles mesmos. Precisavam extirpar essa coisa que sentiam estar sendo anexada a eles - a feminilidade do cuidado - e que eles nem sabiam que sempre estivera lá de alguma forma. Precisavam dessa violência pra reiterar um ideal de homem que nuca fora totalmente verdade.
Na minha experiência do isolamento da COVID, eu me via às voltas com o meu novo ateliê, do apartamento que comprara com Lexy, que viria a ser minha esposa nos anos seguintes. Eu havia acabado de pintar Iokanaan e me sentia frustrado. A pintura havia sido um enorme exercício técnico que não agradara a ninguém além de mim mesmo. Um ato artístico masturbatório, um excesso técnico e conceitual com pouco impacto cuja produção durara meses. Eu precisava limpar o paladar. E por isso e pelas manchetes de violência doméstica, voltei a pensar no woman.
Seria um trabalho simples, despido de todo excesso técnico, mantendo apenas aquilo que era essencial da minha produção: o papel reciclado e a transferência por solvente. Econômico, e por isso mesmo, de alto impacto.
A produção toda durou pouco menos de uma semana: confecção do papel, secagem, impressão e transferência. No final, usei o próprio solvente da transferência, que havia criado as letras, para dissolver o "wo". A dissolução não acontecia totalmente, e deixava uma mancha desfocada ainda no formato das letras.
A facilidade do processo me animou, e outras iterações dessa ideia foram produzidas nas semanas seguintes. Em "Female", eu aproveitava a estrutura de camadas do meu papel artesanal para cortar a primeira camada onde "Fe" havia sido transferido, deixando um vazio em forma das letras no lugar, ao lado do "male" restante. Em "She", eu usei os rejuntes do piso de porcelanato do ateliê para cancelar o "S" ainda no processo de fabricação do papel, deixando o "he". E em "Deusa", o primeiro em português, usei a luz do sol (este astro frequentemente associado à força e deidades masculinas) para queimar o "A" final, deixando o "Deus" remanescente. Todos eram gestos de agressão. Todos formavam o feminino com base em uma automutilação, retirando uma parte de si. Eram palavras masculinas por serem palavras incompletas.

Woman Impact
Março 2021
Transferência por solvente sobre papel artesanal.
35 x 70 cm
Coleção particular

Female Times
Março 2021
Transferência por solvente sobre papel artesanal.
35 x 72 cm

She American
Abril 2021
Transferência por solvente sobre papel artesanal.
35 x 73 cm

Deusa Arial
Julho 2021
Transferência por solvente sobre papel artesanal.
37 x 73 cm
Em Julho de 2021, Woman Impact foi vendida para a atriz Clarice Abujamra no evento de encerramento do programa Casa Tato 3. Foi a minha primeira venda para alguém que não era da família ou amigo próximo. Uma pessoa que genuinamente olhou para o trabalho e resolveu adquirí-lo sem a intenção de ajudar o amigo artista.

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