Teogonia (Capítulo I)
- pedrocardosoleao
- 17 de nov. de 2018
- 4 min de leitura
I
Veloz, porém com sobrenatural quietude, Vampyr saltava de prédio em prédio daquela Cidade em particular. O lugar inteiro havia se tornado soturnamente quieto depois da Grande Batalha de Chelsea. Habitantes locais tornavam-se cada vez mais escassos. Havia menos luzes em cada um dos prédios cinzentos durante as longas noites. A Cidade ainda cintilava seu brilho vermelho-azul de parabólicas zumbindo, resultando em uma perene aura violácea nos arredores das edificações. Mas Vampyr não tinha qualquer certeza de ainda existir alguém assistindo ou mesmo transmitindo qualquer coisa. As poucas coisas que ainda se moviam na Cidade chamavam a atenção das criaturas remanescentes escondidas nos becos escuros. Elas eram seres maliciosos, que assumiam uma variedade de formas, mantendo o mesmo objetivo: consumir umas às outras. Motivo pelo qual Vampyr colocava toda sua atenção em se mover rápida, porém silenciosamente pela Cidade.
Vampyr não era muito diferente de todas aquelas criaturas, também precisando encontrar seres menores e mais fracos para consumir, enquanto evitava o confronto com outros maiores e mais ferozes. Vampyr não era nem ele e nem ela, mas sim um "isso". A depender do contexto, dos códigos falados ou artigos, Vampyr sabia que certas partes do corpo eram alteráveis. Ele podia tornar-se ela ou ir no sentido oposto. E Vampyr tornara-se hábil em usar esta capacidade como estratégia de sobrevivência.
Mas nenhuma das estratégias de Vampyr tinha qualquer relevância no embate com a Modorra. Era o motivo pelo qual Vampyr fugia pelo centro da cidade. A gosma negra da Modorra escorria furiosamente por fendas, encanamentos e valas, transbordava por janelas abertas e topos de prédios, jorrava para o alto pelos bueiros. Ela coalescia brevemente e então disparava para fora, procurando outros pontos de apoio. A Modorra se alimentava de pensamento coerente, e Vampyr sabia disso. Qualquer fuga da Modorra deveria ser executada com uma mente neutra, e Vampyr se esforçava para executar os saltos de beira em beira enquanto mantinha o medo, a dúvida e pensamentos intrusivos longe de sua cabeça. A mente deveria ser vazia. Faça, não pense.
Brevemente, Vampyr considerou que se a rota pelos prédios continuasse até o rio, a Modorra poderia ser despistada cruzando a ponte. O breve pensamento revelou sua posição, e a Modorra disparou adiante. Estava tão perto, que os detalhes na gosma densa eram visíveis: a miríade de fontes, cada uma organizada em uma infinidade de frases fluindo umas sobre as outras em tinta negra e reluzente. Sermões raivosos, argumentos furiosos e raiva aparentemente sem fim. Espirrando dos cantos escuros, rastejando cada vez mais perto.
Sem tempo a perder. Vampyr avançava, definindo uma direção, tornando sua mente um total nada. Apenas um par de quarteirões até a beira da água. O vazio mental detinha a Modorra, confundia seus sentidos, freava seu avanço. Restava agora quase um quarteirão inteiro entre ela e Vampyr. Continuar correndo. O último prédio era mais baixo que os outros. Deslizando por um cano de água, Vampyr saltou por sobre o beco lá embaixo em um salto mortal em direção ao topo do prédio baixo.
E lá estava.
No canto da visão, o tremeluzir de uma tela de televisão era claro demais para ser ignorado. Tentando esvaziar a mente, Vampir não prestara atenção no barulho de estática, audível desde o prédio anterior. Quando o televisor entrou em seu campo de visão, dentro de um dos apartamentos do prédio maior, a voz do âncora de jornal surgiu da estática. Em um tom metálico e abafado, o homem relatou a notícia:
-"desapareceu por um rasgo do Tecido. Ela foi vista pela última vez em um terreno baldio na esquina de Old Street e Great Eastern Street em Londres, no Mundo Externo, por volta de sete anos atrás." A tela mostrava imagens de uma garota ruiva e sardenta, cutelo em mãos, usando um avental de açougue de tamanho infantil por cima de um simples vestido azul bebê. Foi apenas um lampejo de imagem na visão, durante um dos movimentos acrobáticos de Vampyr. Porém, mesmo depois de sumir de vista, o âncora ainda pode ser ouvido por alguns segundos. -"As autoridades ainda não confirmaram se a Filha do Açougueiro pode sequer sobreviver no Mundo Externo sem um artefato-carne, e especulam que ela pode ter sido perdida para sempre. Um destino realmente inconcebível para um avatar."
Ainda disparando pelo topo do prédio, Vampyr inevitavelmente lembrou-se da imagem que todos haviam visto há sete anos. Estivera disposta em todos os televisores e impressa na capa dos jornais daquele dia. A imagem de homem que tentara convencê-la a voltar pelo rasgo no Tecido. Ele estava caído de bruços, seus óculos no chão há alguns centímetros do rosto. Inconsciente. Ela nocauteara-o e fugira. Escolhera ficar no Mundo Externo. O único avatar que conseguiu sair. O que isso significava? Qualquer avatar podia simplesmente sair? Será que as criaturas inferiores como a Modorra podiam? O que acontecia com quem saía? A Filha do Açougueiro não parecia saudável lá fora. Mas ela ainda assim escolhera ficar. O que havia lá fora que era tão importante? Muitas perguntas.
Pensando bem...
Com uma última chicoteada, o farfalhar de fontes engoliu Vampyr em escuridão tumultuosa.

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