Teogonia (Capítulo II)
- pedrocardosoleao
- 12 de dez. de 2018
- 5 min de leitura
II
Você não tem uma empresa, você não sabe o que é isso e não tem poder de decisão aqui...
Ela decidiu viver desse jeito. Foi uma decisão consciente de viver com menos dinheiro...
...quinze dias depois, do nada, se falar uma palavra? E eu sou obrigado a te ajuda?
...nunca foi em nenhuma das apresentações da minha banda. E agora exige que eu prove minha amizade pra você? ...você não é macho o suficiente pra...
Você não é tão importante assim na minha vida... Isso é tudo que eu sou pra você? Sou eu que acordo às cinco da manhã todo dia pra ganhar o dinheiro!
Ele ainda se comporta como os homens da década de 1950...
Eu sei que você não dá a mínima para o que eu penso mas... você não caga onde você come!
...sempre me dizendo pra simplificar minhas pinturas, mas você já viu as dele!?
...proteger seu frágil e querido ego coberto de cristais Swarovsky...
...pode ficar sendo uma dondoquinha porque ela casou com um panaca que paga as contas...
Você nem olhou pra mim durante o semestre inteiro e agora quer a minha ajuda?
...mesmo se esse tratamento ridículo funcionasse, você tá fazendo ele errado! Leia a respeito!
...penando que armas teriam resolvido o problema de segurança na fazenda...
...sei que não devia falar do seu peso, mas você também não pode me forçar a sentir tesão por isso!
Eles teriam tomado as armas e ainda assim roubado ele!
...querida, você tá falando isso para a pessoa errada!
...tão fútil quanto seu feminismo ao estilo "Sex and the City"...
A filha de alguém que fugiu da Itália facista votando nele!
...eu podia dar o troco e machucar você falando algo sobre o seu corpo também...
...seis meses pra resolver o meu lado. E você tá fazendo isso há quanto tempo? Cinco anos?
...provavelmente porque eu fui o único que disse um "não" pra ela...
Ela pode tá morta em algum lugar da Austrália e eu nem ficaria sabendo.
...honestamente, quantas vezes você ensaiou esse discursinho na frente do espelho?
...você fala do vício dele em maconha mas não consegue passar um dia sem um maço de cigarro!
...eu falei que ela via sim as coisas do meu ponto de vista, mas simplesmente não ligava!
Então você chora e eu tenho que esquecer a briga toda?
...quando você nem está me pagando o suficiente pra...
...disse que eu merecia alguém melhor. Como quem? Ela!?
...tô pouco me fudendo!
Sobrecarga. Vampyr se encolheu em posição fetal pelo que devem ter sido dias. O lugar era frio e totalmente escuro e a gosma da Modorra levava tudo como a correnteza de um mar revolto. O enxame de frases numerosas tinha a força para levar tudo em seu caminho. Tanta raiva, rancor e virulência! Suas lógicas individuais e sobrepostas deixavam pouco espaço para qualquer outra cadeia de pensamentos. Depois de um tempo, todo o abuso parecia se fundir em um vasto e abrangente... ruído. Como uma densa e sobrepujante dormência. Vampyr não tinha força sequer para se mover ou nadar para fora. A Modorra teria engolido e aprisionado Vampyr por toda a eternidade. Loucura infiltrando-se como sucos gástricos.
É o que a Modorra fazia com todas as criaturas em seu caminho. Enlouquecia-as e depois extraía delas seus monólogos internos mais virulentos para nutrir-se deles. Só então dilacerava os corpos atrás das substâncias das quais precisava para escrever as frases. Depois de incontáveis dias dentro da Modorra, Vampyr sentia o limiar da insanidade chegando cada vez mais perto. Há qualquer momento, sua mente seria aberta como um livro e a Modorra poderia se refestelar. Há qualquer momento.
Há qualquer momento.
Vampyr quase ansiava por isso. A famosa "doce liberação da morte", embora temida, seria ainda mais fácil de suportar do que este lento rastejar em direção à insanidade. Forçando seus olhos a ficarem fechados e os músculos a tensionarem naquela posição, Vampyr implorava em silêncio por isso. Aceitando seu destino óbvio. Deixe acontecer.
Há qualquer momento.
O pouco ar que conseguia respirar tinha o odor de ferro e carbono. Fluía, ou melhor, escorria lentamente para seus pulmões, mal suprindo o ar necessário para manter alguém vivo. A respiração precisava ser lenta e laboriosa. O exalar trazia a única fonte de calor dentro da Modorra, já que a carícia abrasiva das frases era sentida como tinta gélida serpenteando pelo corpo de Vampyr. Dias e dias desse desconforto davam a impressão de que a pele romperia com a próxima batida do coração. A própria alma se estilhaçaria rumo ao esquecimento.
Vai logo!
Vampyr tornava-se impaciente. Procurando algum vestígio de conforto mental, focou toda sua atenção nas minúcias daquele ruído. Na forma como o som parecia uma textura de notas quase instantâneas e discordantes que não seguiam qualquer ritmo, mas fluíam muito próximas entre si, como um enxame. Elas abafavam qualquer som exterior, como se Vampyr estivesse de fato nas entranhas da Modorra. O ruído tornou-se mais e mais denso ao longo dos dias. Parecia como se o sentido de audição estivesse falhando, como o lento falhar de funções vitais. E uma mistura de medo e alívio tomou Vampyr, que imaginava que a hora havia chegado.
Mas a morte nunca chegou.
Em vez disso, enquanto sua mente parecia se ajustar para ignorar o ruído, Vampyr percebeu outra presença contrastando cada vez mais claramente contra o denso nada. Vampyr não tinha certeza do que era ou se essa presença também sentia a sua presença, mas saber que ela estava lá trouxe uma inesperada sensação de conforto. Deveriam tentar entrar em contato? Certamente tentar falar qualquer coisa dentro da Modorra seria inútil. Mal havia ar para encher pulmões e falar. De qualquer forma, as palavras estavam lá, como as únicas coisas nas quais era possível prestar atenção: "você está aí?" Timidamente, Vampyr tentou estender o braço para o vazio. Se era presença podia ser alcançada, ambas poderiam se comunicar. Código morse, mímica, até mesmo um gentil puxar em sua direção seria o suficiente. Mas seu braço apenas encontrou mais dolorosa tinta gélida e vazio.
"Você está aí? Por favor esteja aí!"
E então havia uma resposta. Não um som. Não era uma voz. E embora Vampyr mantivesse os olhos firmemente fechados, parecia que a resposta estava escrita em letras em algum lugar. Letras brilhantes, diferentes da fonte negra da Modorra.
A palavra apenas afirmou: SIM.
Era impossível dizer se ela era visível em algum lugar, ou se era uma imagem mental dentro de sua mente desgastada. Mas era uma resposta mesmo assim. Sim. Havia algo ali. Algo consciente. A próxima pergunta era óbvia.
"Quem é você?"
Após uma pausa, veio outra respostas: EU SOU UMA DIRETRIZ. As letras pareciam brilhar mais do que a luz do dia, com intensidade calcinante. No entanto, só era possível sentir a tinta gélida e negra. Não fazia sentido. Mas talvez sentido já tivesse sido tomado pela Modorra. Sentindo cada vez mais cansaço, Vampyr se idagava: "Será que morri?"
NÃO.
VOCÊ OBTEVE O STATUS DE AVATAR. FOI-LHE CONCEDIDA UMA SUSPENSÃO DE MORTALIDADE.]
Tornar-se um avatar era uma alta benção no Mundo Interno. Apenas um punhado de habitantes do Mundo interno haviam sido alçados ao status de avatar, e apenas por algum tempo. A Filha do Açougueiro havia sido um deles. Significava que quem quer que fosse o atual avatar tinha o destino do Mundo interno girando em torno de si.
A afirmação da Diretriz seria maravilhosa se Vampyr pudesse escapar de dentro da Modorra. O desespero tomou conta de Vampyr diante da ideia de que passaria uma eternidade daquele jeito. Esperando uma morte que jamais chegaria. E que importância isto teria para o destino do Mundo Interno. Parecia não ter um propósito.
"Para que?" perguntou Vampyr.
A resposta veio em letras tão brilhantes que pareciam a única luz em um vácuo que se estendia infinitamente. Tão enormes que a figura curvada de Vampyr era, por comparação, apenas um grão de areia naquela vastidão. Elas eram visíveis mesmo através das pálpebras fortemente fechadas de Vampyr.
PARA LEVAR OUTRO SER PARA FORA.
A intensidade daquela última palavra venceu e escuridão da Modorra e um novo vazio, feito de pura luz branca, tomou seu lugar enquanto Vampyr perdia a consciência devido à exaustão.

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