top of page

Zangão


A figura de zangões de abelha começou a aparecer nas minhas pinturas de maneira mais consciente na “Para onde foram os Pais? IV”. Quando ela ganhou o troféu do Salão de Ilhabela em 2021, eu conversei com os funcionários da FUNDACI onde havia acontecido o Salão e percebi que em geral tinham pouca noção da natureza dos zangões e da miríade de sentidos que essa figura podia trazer. Eu estava usando esse significante nos trabalhos, mas ainda não havia desenvolvido o significado deles dentro do meu universo pictórico. Foi então que parti para desenvolver uma pintura que isolasse essa figura para dotá-la de sentido.


Naquele tempo, meus sogros estava se tornado apicultores. Estudaram com uma das cooperativas da região onde moravam então e começaram suas colmeias. Eu li um pouco do material que eles estudaram, e fiquei impactado pelo que li a respeito dos zangões.


Ao contrário do que se imagina quando nos deixamos levar pelo nome, os zangões não são destinados à defesa da colmeia (eles não se "zangam" quando há um ataque). Zangões não têm ferrão e não podem atacar. Em vez disso, o que desenvolveria no corpo deles para ser o ferrão se desenvolve para ser o órgão reprodutor masculino (perceba a manutenção da função de penetrar…). Que, assim como o ferrão, é usado uma única vez, quebra-se durante o uso, e causa a morte do zangão.


Zangões são criaturas haploides. Isso significa que eles são formados inteiramente de um único gameta da rainha, não fecundado pelo semen de um zangão. Zangões não têm pai. O que, logo de cara, despertou meu interesse nessas criaturas e fez com que eu as incluísse na série “Onde foram os Pais?”. Essa particularidade genética faz com que a árvore genealógica de um zangão siga a Sequência de Fibonacci. Um zangão vem de uma rainha. Essa rainha mãe vem de um zangão e uma rainha. O zangão avô vem de um rainha. E a rainha avó vem de um zangão e uma rainha. 1-1-2-3-5-8 e assim por diante. Cada número (representando a quantidade de indivíduos naquela geração) é a soma dos dois números anteriores. A Sequência aparece na natureza em diversas situações.


Todo esse conteúdo chegava à minha atenção em um momento em que eu conversava com meu próprio pai, tentando construir uma intimidade que culturalmente não fomos ensinados a ter, e vivenciando o fato de que ele, como eu, também era um pouco zangão. Também sentia as ausências do seu pai, meu avô, e também tivera que aprender muito do adultecer como homem por conta própria e ser qualquer orientação.


Nessa pintura, resolvi experimentar um monte de coisas. Fiz o maior papel possível no meu ateliê da época. Foi ainda a primeira vez que montei o papel em um chassis, como um painel de pintura. Usei a encáustica pra incluir cera em uma pintura sobre abelhas. Fiz uma pintura para ser percebida mais pela variação de texturas do que de cores.


Eu demorei muito tempo até considerar textura na pintura. Sempre estiquei bem a tinta, gostava de ver a trama da tela através da imagem. Quando comecei a considerar texturas, eram texturas ilustradas, a ilusão de volume. Demorei ainda mais para me permitir usar tinta mais grossa. Nessa pintura percebi que até o meu suporte, o papel reciclado, pode me dar situações interessantes de textura.



Zangão

Setembro 2021

Acrílica, encáustica e transferência por solvente sobre papel reciclado e gesso.

98 x 98 cm


A pintura foi premiada com o segundo lugar do Salão de Artes Visuais de Jacareí em 2022.




Comentários


bottom of page